Blog do Avô

O Primeiro Blogue sobre Corfebol (mas não só) em Portugal!

Sexta-feira, Maio 16, 2008

Júlio Miguel, o Filho

Todos somos filhos de mãe e pai. Todos podemos já ser um vir um dia a ser pais ou mães. Todos podemos vir a ter um progenitor preso. Todos podemos ter filhos a ver-nos, um dia, nessa situação. Sabe-se lá! Ao preço que anda o arroz…
Por isso não pensem que gozo com a aflição do petiz a quem, a pedido de duas ou três famílias, agora dou voz. È pela música, só pela música. Não me venham, portanto, com aquela de que não se deve escarnecer das mágoas alheias.
Escarneço então da música, só da música. Nunca do moço ou do seu paizinho, que um dia “praticou erros” e foi “intruso”, e agora está “repeso”, mas que anseia viver de novo a “vida com brilho”, para “salvar o seu filho”.
Até porque, se fosse essa a ideia, podia vir aqui com piadas foleiras, tipo: se o pai ouvir a música que o filho lhe dedicou ainda vai é querer ficar na choldra, para não ter que o ouvir mais. Ou então: que o tipo que gerou um cantor destes merece mesmo é estar lá atrás das grades.
Mas não. Nunca tal por tal nunca ser.
É mesmo, num sentido de serviço público, para dar a conhecer a todos esta impagável música, que nos engrandece enquanto portugueses e conscientes dos valores familiares.

Aliás, até acho que, com as devidas adaptações, esta música deveria ter sido utilizada no genérico do primeiro Prison Break. O mano que “está sofrendo, nas grades da prisão”, que tem o mano a “sofrer consigo até à liberdade”. A sofrer tanto que até vai lá para dentro só para o safar, com as consequências trágicas que daí foram advindo ao longo de muito, muito, tempo.
A dedicação deste jovenzito pelo seu pai até me inspira a engendrar um Prison Tuga. Imaginem lá o petiz a assaltar um banco e fazer-se inserir no estabelecimento prisional onde se encontra encarcerado o seu pai. As peripécias que passaria para o tirar de lá, aliando-se a outros prisioneiros, uns mais bonzinhos, outros nem por isso. Até se podia apaixonar pela pediatra. Era bonito de se ver.
Talvez, se não der para uma série prolongada, a TVI use a ideia para um episódio dos Casos de Vida.Ou então, dado o potencial que esta história tem para ser um musical, talvez o La Féria queira fazer um dos seus espectáculos grandiosos com este pungente drama familiar. Imaginem o Júlio Miguel a fazer um dueto com a Anabela! (ou então não; não imaginem… Ui! Até dói!).


julio_miguel_e_leninha-o_filho_do_recluso.mp3

Terça-feira, Maio 06, 2008

Tecnotolices

Não é novidade: sou um bocado infoexcluído. Acho que deve haver maneiras simples de fazer as coisas, mas não as descubro.

Experimentei colocar aqui a música pelo box.net e não gostei do resultado. Primeiro porque não me deixou pôr as duas músicas a que o texto aludia (ficou o "Gato" no outro e agora está aqui o "Tecno"). Depois porque, aparentemente, obriga o pessoal a abrir a música, com dispêndio de tempo e com nova janela, no WMP.

Se alguém souber como resolver isto (toda a gente deve saber menos eu, claro), digam qualquer coisita.

É que isto dá para imagens e para vídeos... é um bocado idiota que não dê para músicas...

AHA, Sim, Ninfa

Já passou muito tempo desde que a minha percepção estética musical mudou. Na altura não tinha um blog onde dar a conhecer ao Mundo a minha musa, a minha Ninfa. Hoje tenho e seria uma injustiça não divulgar a experiência transformadora que foi conhecer esta artista. A minha vida mudou desde que, via Markl (por sua vez, via PortalPimba), conheci a Ninfa Artémis.
É uma artista surpreendente, muito difundida já pela net fora, mas afastada dos grandes palcos nacionais. Nem às queimas das fitas vai, o que me parece justo, visto que, ao pé dela, o Zé Cabra é uma nulidade.


“AHA, Sim, Gato” é um hino pornodebochado que devia ecoar em todos os auto-rádios portugueses. Inspiração para homens e mulheres, não sei se é da força da letra, se da magnificência da música, se das inflexões vocais da artista, mas é de pôr alto, bem alto, a fazer vibrar os subwoofers, de preferência em loop, porque há sempre mais qualquer coisa que aprendemos quando ouvimos segunda vez, e terceira, e quarta…
Quando me parecia que já tinha ouvido tudo, quando o “Gato” me fazia questionar se esta artista de outra galáxia se ficaria por um único top hit, eis que me chega, via PortalPimba, “Tecnotolices”, e aí confirmei que estava perante uma artista com "H" grande. Uma música com uma batida menos dançável que o “Gato”, mas com todos os outros ingredientes, desde a elevada qualidade do texto à suprema divindade da voz. O título parece uma crítica ao José Magalhães, mas é, afinal, a todos os homens, esses tecnotolos consumidores de pornografia.
Para aí uns 20 meses depois de ter contacto com estas músicas (Ave, Markl, o País te agradece), continuo a ouvi-las com o mesmo nível de estupefacção. E, quando as ouço, sinto-me pequenino, tão pequenino, perante essa grande diva da música nacional - quiçá mundial – essa Artemisa, essa Tágide, essa Ninfa do bom gosto.
Se já conheciam, re-ouçam com a devida satisfação. Senão… agradeçam-me apresentar-vos algo tão… bom!



ninfa_artemis-aha_sim_gato[1].mp3



Devo acrescentar em tom de post scriptum que, desta vez sem o Markl (mas de novo via PortalPimba), descobri recentemente uma outra canção que me deixa sérias dúvidas quanto a escolher a melhor música de sempre feita em Portugal. É o “Filho do Recluso” (ou do “reculuso”, porque ajuda à métrica). É sobre um filho que sofre o sofrimento do pai, que está preso (ou “repeso”, o que quer que isso seja).
O jovem que canta esta música não tem nem um décimo do carisma da Ninfa, nem o seu poder vocal. Mas não deixa de ter uma interpretação que entrará nos anais da música. A melodia é mais suave, mas a criança consegue agitá-la como um calhau agita um charco. Mas a letra – meu Deus, a letra! – é sublime.
Ficou então a ressalva. A Ninfa continua a ser a melhor artista portuguesa de todos os tempos, mas o “Reculuso” tem qualidades para, à 5ª ou 6ª audição, ser a melhor música já feita neste jardim à beira-mar plantado.

Terça-feira, Abril 22, 2008

Koog quê?

Notícias vindas da Terra Korf espantaram-me.

Uma equipa que só no ano passado é que chegou ao nível de topo do melhor Corfebol do Mundo (a Korfbal League holandesa), e que andou a lutar por não descer, este ano conseguiu uma proeza fantástica - o título mais cobiçado do Corfebol mundial.

Não é novidade para quem cá anda há algum tempo que ser Campeão holandês é mais importante que ser Campeão do Mundo. O mítico Ahoy, na Final Indoor da Terra Korf, é onde todos querem estar e onde todos querem ganhar.

Pois, desta vez, pasme-se muita gente!, quem o fez foi o quase desconhecido Koog Zaandijk.

Um DOS'46 carregadinho de estrelas, mesmo que com o Top Star André Kuipers no final de uma época azarada com lesões, não conseguiu bater os tipos que viajaram de Koog aan de Zaan. Mas também o PKC, de Scholtmeijer e dos Simons brothers, tinha já falhado nessa tarefa.

A surpresa é só parcial, se tivermos em conta que o Koog Zaandijk já tinha vencido a fase regular, mas o pasmo mantém-se.

Boas novas - novas de renovação - nos chegam do País que Respira Corfebol.

Sexta-feira, Abril 11, 2008

Revolução Ortográfica - o Tratado

Elevadas que ontem foram as expectativas, vamos lá à verdadeira Revolução Ortográfica. Há anos que a proponho, com maior ou menor discrição, e já ia sendo altura de saltar para um blogue.
Vou falar do português e das suas idiotices, mas deixo já a advertência de que não considero que estas sejam monopólio da nossa língua. Qualquer falante de outro idioma poderia escrever um texto idêntico a este.
Há no português escrito pormenores que são perfeitamente absurdos e que só servem para que a sua aprendizagem seja mais difícil. Há uma série de letras com polivalência fonética, fonemas reproduzidos por mais que uma letra, letras inúteis, uma enormidade de excepções às regras. Quantos de nós não tiveram outrora dúvidas na aprendizagem por causa destes engulhos e quantos de nós não tiveram já dificuldades em explicar aos mais jovens que nem tudo é como era suposto ser?
Um alfabeto deveria ser uma paleta de letras em que cada uma (e apenas uma) correspondesse a um som e em que todos os sons estivessem abrangidos. Mas não é assim.
Para o “lhe” (de “olhar”) ou o “nhe” (de “ganhar”) precisamos de conjugar letras. Para o “r” (de “farol”) temos o R, mas que só tem o som que lhe está atribuído, o “rr” (de “carro”), quando está duplicado ou no início da palavra. Devíamos ter uma letra que reproduzisse o “lhe”, outra para o “nhe” e outra para o “r”. Ou então um acento, como os espanhóis fazem com os “ñ”. Mas, como não temos e não quero inventar letras, o meu Tratado vai esquecer as omissões do alfabeto português.
Se vou passar por cima das omissões, o mesmo não farei com as repetições.
Se temos um Z, por que raio havemos de utilizar o S ou o X para o reproduzir? Ainda por cima, isso faz com que ao S se aplique a regra do R, ou seja, que só vale assim quando está duplicado ou no início da palavra. Ou então em casos excepcionais, como “falso”, o que ainda vem ajudar mais à confusão.
E o C a fazer de S? Para quê, se a letra existe? E já que falamos de C, qual é a lógica de esta letra mudar de valor em função da vogal que se lhe segue? Porque é que vale “s” em “aceno” e “k” em “acordo”?
E o Q, o tal que “é uma letra que se lê”, serve para quê? Se temos o C com valor “k”. Ainda por cima, tem também aquela particularidade de precisar de um apoio (o U), que se lê ou não (“quando” ou “quem”) em função da vogal seguinte, o que é absurdamente inútil.
Não fossem as omissões de que falei anteriormente, e também o H era dispensável. Ter H’s mudos é ridículo.
Para não baralhar mais, vou, por agora, esquecer as vogais. Também nas vogais havia muito para dizer sobre letras que se valem por outras, dependendo de acentuação, tudo bem, mas não só - também dependem da posição que ocupam na palavra e, mais uma vez, de um rol de excepções que tornam o aprender português uma tarefa penosa.
Também não vou introduzir uma outra alteração que, apesar de a defender, tem sido mal recebida por aqueles com quem a comento, o que faz com que eu próprio ainda não esteja totalmente convencido. É a questão do som do S quando no final das palavras ou antes de consoantes (“cargos” ou “este”). Para mim, esse S lê-se “j”. Fica a ideia, mas não a reproduzirei, para que mais perceptíveis fiquem as outras propostas.
Talvez mais tarde me debruce sobre isso e sobre as vogais. Por agora, deixo-vos um exemplo do que poderia ser o português simplificado, dando a cada consoante um único valor e apenas tendo uma consoante para cada valor. Sei que poderia ser uma revolução grande de mais, mas podem ter a certeza que, daqui a umas décadas, as gerações vindouras nos agradeceriam pelo acto visionário. Ficaria qualquer coisa como isto:

Era uma vês um menino pekenino ke gostava de jogar à bola. Também gostava de pasear. Kuando dava um paseio, uzava kuaze sempre o seu kazako azul e as kalsas roxas.
Enkontrei-o na semana pasada no sinema e axei-o kom um ar kansado. Perguntei-lhe se estava tudo a korrer bem e ele dise ke sim.
A mãe dele tem sinkuenta anos e xama-se Maria. Ningém lhe daria esa idade porke parese muito mais jovem. É uma dansarina ezemplar.


A utilização do K para o respectivo som foi uma opção que fiz agora. Uma vez que já o temos no nosso abecedário, então mais vale utilizá-lo. Até porque o C tem um valor tão polivalente que daria azo a mais confusões. Com tantos K’s isto parece linguagem de sms, mas quem vir melhor vai perceber que está longe disso. As letras estão lá todas; têm é os valores uniformes.
Se detectarem algum erro, não me admiro. A prática de escrever no português correcto (embora absurdo) é tanta que, apesar de ser um texto pequeno, pode-me ter escapado alguma coisa (encontrei dois ou três C’s depois de escrever, por exemplo).
Enquanto não se investe no Esperanto, ou em qualquer outra língua com o duplo condão de ser universal e simplificada, fica este meu contributo para a discussão acerca do português, neste caso o escrito.
Ah, e já agora, falando daquilo que mais gostamos…

No último jogo markei um sesto. Foi um lansamento na pasada. O defeza ezajerou na presão e eu konsegi entrar kom fasilidade. Á mérito também para kem me fês o pase.

Quinta-feira, Abril 10, 2008

Revolução Ortográfica - Introdução

Faz-se num copo de água um tornado maior que o de Santarém quando se fala no Acordo Ortográfico. É porque são os brasileiros que mandam nisto e os africanos que não mandam coisa alguma; é porque a língua dos nossos avós deve ser preservada; é porque nas escolas vai ser uma confusão do caneco; é porque os livros vão ter todos de ser reeditados… enfim, vem aí o apocalipse. Bem diziam os apocalípticos medievais que o Fim do Mundo vinha nas escrituras. Mal sabiam eles que isso seria tão literal.
A simplificação da língua é um imperativo lógico. À medida que a prática muda, também as regras o devem fazer. É assim em todas as actividades sociais, porque não havia de ser no acto tão mundano de falar e escrever?
São os brasileiros que ditam as alterações?... Não me parece que isso seja 100% verdade, mas é natural que exista um contributo maior a Oeste do Atlântico. Porquê? Porque são mais, para começar. Mas essencialmente porque não estão espartilhados pela tradição secular que nos prende a um classicismo de que nos orgulhamos (e bem!), mas do qual não conseguimos discernir o lugar na história e o legado para a prática corrente. Por outro lado, apesar de jovens no falar português (em comparação connosco), o que lhes dá essa capacidade de inovar com pertinência, são experientes na autonomia educativa, em comparação com os países africanos, que há tão pouco tempo deixaram de ter as vidas dominadas pela metrópole. Os brasileiros simplificaram muito do português, ao longo de uma fértil história de uso autónomo da língua.
A língua dos nossos avós deve ser preservada? Bom, quanto a mim, Avô de todos vós, dispenso outra preservação que não a de estes textos ficarem guardados em algum lado e que alguém tenha o interesse de os ler de vez em quando, no futuro. Quanto à língua, só se for em formol e não, obrigado (só de imaginar dá-me uma voltinha no estômago). Deixaremos de ler Saramago se ele não escrever como nós? Ooopss… Saramago não é um bom exemplo… Deixaremos de ler Mário Cláudio se ele usar palavras diferentes das que usaremos no futuro?... Respondo perguntando se deixámos de ler Camões, que tanta coisa escrevia que hoje nos faz pasmar e sorrir.
Nas escolas vai reinar a confusão? Acredito que toda a transição é conturbada. Esquece-se a TLEBES, vem o Acordo. E como se avaliam os petizes? E como se ensinam? E como se avaliam os professores e se ensinam os professores a ensinar e a avaliar como deve ser? Vai ser complicado durante uns tempos, mas tem de haver um período de transição, como sempre houve noutras mudanças, em que se considera coabitantemente certo que o era antes e o que passou a ser agora.
Vamos ter de reeditar os livros? Aos poucos, sim. Não de empreitada, claro. A não ser os escolares, mas esses são-no na mesma. De resto, à medida que se forem editando obras, fará sentido óbvio que seja à luz das novas regras. Mas enquanto não o forem, ler-se-ão os livros como sempre se leram. Alguém poderá sorrir quando vir uma palavra arcaica, como hoje fazemos se lemos um Eça original. E aqueles livros que não mereçam reedição, ficarão para sempre no original, o que não me parece o Fim do Mundo.
Quer se evolua nas regras, quer não, as mudanças sentem-se no dia-a-dia. Resta saber se temos o espírito suficientemente aberto para fazer dessa mudança a Lei.

Mas amanhã… ah! amanhã… terão a surpresa de ver o que é a verdadeira Revolução.
Perante o que vos vou sugerir, o novo Acordo Ortográfico estará longe de ser o Fim do Mundo; nem o Fim do Meu Bairro será.
Este texto era só para vos amaciar o espírito e preparar para o que aí vem. Esperem para ver!

Terça-feira, Abril 01, 2008

Uma Confissão

Dizem as leis genealógicas que é necessário um pai e uma mãe para haver um filho, que esses pais tiveram necessariamente pais, que são, por inerência avós dos seus filhos, numa linha sucessiva que só tem travão em dois casos especiais que os doutos Testamentos nos explicam – um é o dos primeiros seres de cada espécie (Adão e Eva, no nosso caso), que não terão pais, nem avós, o outro é o do Cristo, nascido sem pecado, portanto talvez sem pai terreno, talvez sem avós, mas com mãe, porque, mesmo sem pecado, alguém tinha de parir o Escolhido.
Um neto pressupõe, portanto, um avô e uma avó, com um pai e uma mãe pelo caminho. Mas, no entendimento comum, podem-se saltar esses intermediários, que para aqui não fazem falta. É como dizer que ao preto se segue o branco, esquecendo os cinzentos que terão de ter tido o seu lugar inevitável na transição cromática. Portanto, ao avô pode-se seguir logo o neto, sem passar pelo filho/filha de um, que será o pai/mãe do outro.
Baralham-se as cabeças, que é para ser mais difícil chegar à parte apetitosa da confissão. Não pensem que atingem o auge do texto sem penar primeiro num deserto pedregoso.
Mas a confissão vem já de seguida, não se preocupem. E, de teaser em teaser, o pessoal perde a paciência e apenas os mais persistentes chegarão à planície prometida em que ficarão a saber mais do que os que nervosamente abandonaram a demanda por uma verdade maior.
É como nos nossos noticiários televisivos, em que temos a notícia propriamente dita, mais os rodapés a debitar outras notícias, mais os flashes que anunciam que “já a seguir” se vai falar de uma outra coisa. Normalmente é essa outra coisa que as pessoas querem ver e esperam, penam, atravessam o deserto pedregoso das notícias chatas, sempre à espera da tal notícia que parece ser tão importante mas vem lá para o finalzinho do noticiário.
Pois aqui é assim… querem confissão?... apanhem o resto primeiro.
Sim, porque nos noticiários também há quem tenha a tendência para fazer zapping, e depois admiram-se que, quando vão ver se está quase, a notícia já deu. Mais vale prenderem-se ao ecrã, ou a demanda terá saído furada.
Acontece muitas vezes que a tal notícia acaba por ser um flop. Much Ado About Nothing. Pois, o contrário não garanto, nem nos noticiários televisivos, nem aqui. Cada um segue pisando as pedras do deserto por sua própria conta e risco. Não há devolução do dinheiro investido. Nem do tempo. Nem da paciência.
A confissão parte de um Avô que andava com vontade de se tornar jovem. Qual é o contrário de preto? É branco. Qual é o jovem de Avô? É Neto.
Então o Avô, que achava que só o seu lado jovem é que podia continuar a pairar sobre o Corfebol e a opinar sobre ele, mandou o seu alter ego geracional criar o seu próprio espaço. Assim, ele teria tempo para fazer do seu Blogue algo de diferente, com pitadinhas de Corfebol mas sem exagerar na dose, enquanto a sua parte jovem continuava a tentar que as pessoas falassem sobre temas interessantes de Corfebol e não das polémicas da arbitragem e quejandas.
Portanto, a confissão é esta – o Neto é o Avô e o Avô é o Neto, mas em fases de disponibilidade mental diferentes. Por isso é que o novo site nunca podia ser pior que o primeiro, capice?
Pronto, está dito. Desfez-se (talvez rapidamente demais, mas que se lixe!) o mistério em torno do Neto. Assim não dizem que não se joga às claras.
A bem do Corfebol.

Quarta-feira, Março 19, 2008

Pior a Emenda que o Soneto


Imaginem que estão preocupados com as pessoas que bebem numa festa e que depois vão a conduzir para casa. Comentam essa situação com algum amigo, supostamente sóbrio, que medita no assunto e sai com a melhor das soluções – “É dar-lhes mais de beber. Assim nem sequer conseguem pegar nos carros e já não vão a conduzir para casa”. A típica fuga para a frente.
Pois eu há anos que estou preocupado com o sistema eleitoral português e vejo-me agora perante uma solução idêntica. Acérrimo opositor dos círculos eleitorais, em eleições legislativas, defensor do círculo único, deparo-me com a vontade da maioria em torná-los uninominais.
Sacrificada a democracia em nome de uma representação geográfica que, na prática, não existe, vamos emendar a situação sacrificando-a mais ainda, para ver se já passa a haver a tal representação. Em vez de tirarmos o álcool ou o carro a quem tem os dois, vamos mas é enchê-los de álcool. Pode ser que nem se apercebam da estupidez que estão a fazer.

O sistema actual é injusto.
Ao votarmos em círculos, não estamos a dar a correcta proporcionalidade entre os votos efectivos de um partido e o número de deputados na Assembleia da República.
O eleitor português raramente se questiona sobre o porquê de haver maiorias absolutas com 40 e poucos por cento. Ainda há dias ouvia alguém supostamente credenciado a dizer que a culpa era do método de Hondt. Pois asseguro-vos que o Hondt funciona na perfeição. Não sei quem foi o gajo, mas era um génio.
Desafio-vos, se ainda não o fizeram, a aplicar o método a qualquer resultado eleitoral, para eleger qualquer número de elementos. Vão ver que a proporção é sempre fiel aos resultados.
O problema é que, quanto menos os eleitos, mais “sobras” existem. Se elegermos 20 representantes, a lógica é que cada 5% de votos eleja um. Mas se vários partidos ficarem abaixo dos 5%, então esses votos muito provavelmente irão ser perdidos e vão reverter a favor dos mais votados. Daí a forte possibilidade de ter mais de 50% dos representantes sem a maioria dos votos.
Claro que, se baixarmos de 20 representantes (chamemos-lhes deputados) para 10, então será mais difícil um pequeno partido chegar à Assembleia (só com 10%). E se passarmos a 1 único eleito, então só o partido mais votado irá eleger o seu representante, mesmo que só tenha tido uma votação baixa em termos absolutos.
Se o nosso Parlamento tem 230 lugares, diz a lógica matemática que devíamos eleger um deputado por cada 0,4% de votos. Seria a lógica, mas não é assim. Se assim fosse, o PCTP/MRPP e o PND teriam deputados eleitos nas últimas legislativas. No caso do MRPP, há vários anos, pois tem tido sempre votações acima desse valor. E o PS nunca teria actualmente 53% dos deputados com apenas 45% dos votos. Apliquem o método de Hondt aos resultados gerais nacionais e vão ver se não tenho razão.
Isto acontece porque o Parlamento é composto por várias eleições autónomas, distritais, e não por uma só, nacional. Desta forma, há mais listas que não chegam à eleição, em cada círculo, o que engorda os partidos que conseguem sempre, em cada Distrito, eleger pelo menos um deputado.

Em termos de representatividade, há outra questão polémica na determinação de quantos deputados deverá eleger cada círculo. Estou confortável neste aspecto porque, mais uma vez, foram buscar o fulano Hondt para fazer estas contas. O número de deputados a eleger por Distrito é determinado racionalmente, de acordo com o número de eleitores. Mas eleitores nem sempre é igual a votantes. Se um Distrito tiver uma elevadíssima taxa de abstenção, continua a eleger o número de deputados que lhe cabe por direito. Neste caso, o que acontece é que cada voto nesse Distrito vale mais do que um voto noutro ponto do País onde toda a gente terá ido votar. Ou seja, os deputados não representam o mesmo número de votantes.
Isto não aconteceria num circulo único nacional.

Então, porque é que existe este sistema?
A ideia é criar uma representação regional. Julga-se que as populações serão melhor representadas se tiverem uma relação mais directa com os seus eleitos.
Tangas!
Na prática, nós sabemos que o voto é para um partido e não para quem está na lista de cada Distrito. Vota-se, eventualmente, nos candidatos a Primeiro-Ministro. Esses costumam encabeçar as listas por Lisboa, mas são mais importantes para um bragantino do que os seus próprios candidatos.
Um exemplo actual foram as autárquicas em França. Toda a imprensa foi unânime em indicar que os resultados foram uma penalização a Sarkozy. Puniu-se o Presidente não votando no seu partido, numas eleições autárquicas. Isto tem lógica? Não; mas é assim que o pessoal funciona.
Da mesma forma que os eleitores não ligam a quem os vai representar regionalmente, também os eleitos não ligam às regiões que os elegeram. Muitos nem sequer de lá são. Foram lá parar por uma questão de táctica política (nomes fortes para círculos decisivos, mesmo que nunca lá tenham posto os pés).
Quantas vezes um grupo de deputados votou contra o seu partido em defesa da região que o elegeu? Fora o triste episódio do queijo limiano… não me lembro. Mas lembro-me dos “eleitos do futebol” se unirem extrapartidariamente, quando as leis lhes pisaram os calos. Quanto a círculos eleitorais, só mesmo em assuntos das regiões autónomas parece haver algum sentido regional, mas isso é um caso à parte.
E se nós queremos ser representados, porque havia de ser regionalmente? Por essa ordem de ideias, as mulheres deviam votar em listas de mulheres e os homens em listas de homens, para que se sentissem representados. E os escalões etários também podiam ser divididos. E as profissões (arquitectos votavam em arquitectos). Ridículo?... Yep!

Até aqui, o pessoal que defende os círculos uninominais até deve estar de acordo comigo em quase tudo. Está mal como está, então vamos mudar o sistema. A diferença é que uns querem corrigir as falhas acentuando-as e outros eliminando-as.
Criar círculos em que elegemos uma só pessoa vai fazer com que votemos nela e não no partido?... Duvido!
Vai fazer com que essa pessoa esteja mais perto de quem a elegeu, e portanto possa votar contra o partido quando os interesses dos “seus” eleitores estejam em causa?... Duvido!
E, no entanto…
Vai fazer com que a discrepância entre votos e eleitos seja ainda maior. Benefício evidente para os grandes partidos, que irá proporcionar a definitiva bipolarização do espectro político português. Vai passar a fazer sentido a lógica do voto útil (para quê votar na 3ª força, se a luta é só entre a 1ª e a 2ª?).
Vai acentuar as injustiças baseadas na incidência regional. Um partido que esteja disperso por todo o País, sem grande incidência regional, pode representar 15% dos portugueses e não ter um único deputado. No entanto, se a Fátima Felgueiras criar um partido só dela e ganhar o círculo mais próximo da terra que lhe deu o nome, pode ter uma expressão mínima a nível nacional, mas vai ter representação no Parlamento Nacional.

Na prática, ainda não percebi qual é a ideia em relação à criação desses microcírculos.
Porque agora, mesmo não concordando com o sistema, há uma lógica na determinação dos círculos – São Distritos. Há uma identidade que une as pessoas do mesmo Distrito e há Distritos com mais e menos população. Dessa população, advém o número de deputados que elegem. Tudo bem.
Mas os círculos uninominais têm de ter população idêntica. Como elegem todos o mesmo número (1) de deputados, têm de ser criados em função disso, invertendo a lógica anterior. Como é que se faz isso?
Inevitavelmente, terá de deixar de haver uma lógica geodemográfica, o que me parece um bocado idiota. Porque, se não há uma identidade comum (mesmo que meramente administrativa) nos eleitores, então como é que o seu deputado os vai representar?

Parece-me evidente que ninguém procura, com esta proposta, a justiça e a democracia. Os argumentos são poeira que oculta (mal) uma lógica de cristalização do actual poder. Quem decide é quem lá está e quem lá está decidirá em função da melhor forma de lá continuar.
Os outros, os que estão fora da chamada “esfera do poder”, não terão mais do que comer e calar.
Mas talvez os portugueses, que na sua maioria até votam no PS e no PSD, tenham algo escondido no fundo da sua aparente despreocupação. Talvez tirem inesperadamente um coelho da cartola e se demonstrem mais preocupados com o futuro democrático do que com o presente eleitoralista. Talvez os portugueses revelem um sentido de justiça e democracia que vá para além do seu partido de eleição e, mesmo sem deixarem de legitimamente votar em quem costumam votar, façam notar que não é esse o caminho que pretendem seguir.
Talvez…

Quarta-feira, Março 12, 2008

Alargar Horizontes


Já lá vão tempos de tal forma longos que nem me lembro do ano que corria. Havia um Fórum de Discussão sobre Corfebol, onde se iam mandando umas bocas, fazendo uns comentários, falando amenamente sobre o que se ia passando neste nosso Mundo.
A certa altura, um tal de Sr. R, personagem enigmática, elaborou um texto simpático, que fez abrir sorrisos na cara de muita gente. Fui um deles. Nunca cheguei a saber quem estava por trás desse texto, nem houve outros com a mesma assinatura. A curiosidade passou. Nunca mais se ouviu falar no Sr. R.
No texto aludido, havia, a certa altura, a referência a um avô. Fiz a minha imagem mental dessa personagem. Não sei se era igual à imagem original do autor. Era a minha imagem.
Estava nesses dias com vontade de escrever qualquer coisa e achei que a imagem que tinha feito do tal avô se podia adaptar ao texto que me ia saindo da caneta. Nessa altura ainda escrevia a caneta, passando depois para as teclas e o ecrã. Tenho ainda o rascunho desse texto, quase ilegível. Tenho pena que não se tenha preservado o definitivo, o que esteve plasmado na Web.
E assim escrevi e tornei público um texto que tinha como base um início comum de todas as frases: “Eu é que sou o Avô que…”.
A ideia não era criar uma personagem nem roubá-la ao autor original. Mas aconteceu que houve uma grande aceitação do texto. Houve outra vez uma abertura de sorrisos. Passava-se de “quem é o Sr. R?” para “quem é o Avô?”.
Surpreendi-me quando alguém, a primeira vez que me viu depois desse texto, me ter cumprimentado com um “Olá, Avô”. Foi a única pessoa que desvendou imediatamente esse enigma.
E resolvi arriscar outro texto. Este já não era tão consensual. Sob o lema “Planei e vi…”, era um texto em duas partes. Na primeira, com um tom pessimista, relatava certas coisas que me desagradavam no Corfebol. Na segunda, com um cariz mais conciliatório, ligava o botão do optimismo e enumerava uma lista de coisas positivas.
A identidade do Avô apenas tinha sido envolta num pequeno mistério simplesmente por piada. Não era uma situação para durar. Aliás, em bom rigor, nunca foi. Quem quis saber e o perguntou com civilidade, teve sempre a sua resposta. Para segredo, foi sempre muito mal guardado.
No entanto, houve nesta fase um episódio que talvez tenha determinado que não fosse apregoado aos quatro ventos algo que deixou de ser piada para ser, de certa forma, protecção.
Estávamos eu e mais duas pessoas que pertenciam comigo a um projecto novo. Uma delas puxa o assunto “Avô” e gaba-lhe o escrever. Prestes a, vaidoso, assumir a paternidade dos textos, foi essa minha pretensão interrompida pela terceira pessoa. Que sim, que o primeiro texto, tinha sido muito giro, mas o segundo fazia afirmações que não lhe tinham caído bem.
Perante tal revolta, e porque o projecto novo que tínhamos abraçado em conjunto poderia ser perigado por uma questão de somenos, calei a revelação.
As afirmações polémicas eram o constatar de que algumas pessoas usavam o seu estatuto no Corfebol português para pressionar árbitros durante jogos decisivos. Nenhuma novidade. Apenas a novidade de ser escrito.
Poderia ter aprendido que dar opiniões causa atritos. Poderia ter aprendido que as opiniões variam e que o clubismo pesa muito nessa variação. Mas não aprendi. Não aprendi porque já sabia e nunca deixei de saber. Mas também sei que, tal como aceito opiniões alheias, mesmo que com elas não concorde, é suposto que as minhas não causem a revolta que sempre causaram num punhado de pessoas, como se as ideias se combatessem com ameaças e insultos.
A mesma pessoa que descobriu prontamente a identidade do Avô foi quem me sugeriu criar um Blogue. Aceitei a sugestão. Era fácil. Sem custos. Aderi à Blogosfera. Assim poderia veicular, pensava eu, as minhas dissertações sem polémica. Sendo meu o Blogue, a responsabilidade editorial seria exclusivamente minha. Não teria de prestar contas a quem quer que fosse. O público seria quem quisesse e quem não gostasse ficaria à porta.
Sabemos que não tem sido bem assim, mas vive-se com o que se tem, rodeado de quem se tem à roda.
Passaram, entretanto, três anos e meio, uma centena e um quarto de textos publicados, tantas polémicas causadas, umas pelos textos, outras pelos comentários aos textos.
Comentários cuja hipótese nunca quis retirar. Acho que devem cá estar, por muito disparatados que alguns sejam. Apenas tive de eliminar comentários por três vezes (se a memória não me falha), sempre por palavras excessivamente grosseiras. Ironicamente, duas delas foram situações em que eram insultadas precisamente as pessoas que mais se queixam do que escrevo.
O tema Corfebol foi esticado exaustivamente. Somos demasiado poucos e com uma expressão demasiado pequena para que haja assunto para falar com a regularidade que este Blogue teve durante tanto tempo. Acho que consegui esticar o elástico sem o partir nem lhe retirar qualidades. Posso-me orgulhar, sem falsas modéstias, por uma mão cheia de textos (é óbvio que há vários que não saíram tão bem) com qualidade, se atendermos a que foram sobre um tema que não seria fácil de replicar com tal constância.
A mesma pessoa que disparou o “Olá, Avô” logo no início, e que sugeriu a criação de um Blogue, entendeu há tempos dizer-me que estava na hora de fechar a loja e partir para outros projectos, mais abrangentes. Não irei revelar os termos em que isso foi dito, mas foram termos interessantes, edificadores do ego do Avô, mas destrutivos para o mundo sem o qual o Avô não era Avô – o Corfebol.
Então, agradecendo-te, L., aceito parcialmente a tua sugestão. E, numa altura em que o pessoal está a ler nisto uma despedida, inflicto um pouco nessa ideia. Não deixarei de escrever no Blog do Avô. Apenas deixarei de escrever exclusivamente sobre Corfebol.
Ainda por cima, agora temos um segundo Blogue sobre Corfebol. Que, para mais, é assinado por um Neto, o que daria um toque de sucessão, não fosse o facto de tal projecto me ser completamente alheio. E, se esse espaço esteve um bocado hesitante no início, há indícios de que pode ser mesmo à séria. Teremos de esperar para ver, torcendo para que haja mais participação quando se falarem de coisas importantes do que quando se mexer na susceptibilidade de alguém.
Esta é uma solução de compromisso comigo mesmo. O Corfebol continuará a figurar no endereço, no propósito, e no historial longuíssimo deste Blogue. Também figurará, sempre que isso seja pertinente, nas postagens. É lógico que a modalidade continuará a ter um papel fundamental na minha agenda.
Talvez devesse romper com este Blogue e começar um de raiz. Talvez ainda o venha a fazer, se um período inicial não correr bem. Mas, para já, é esta a solução. Poderei fazer uma revisão a algumas coisas, se tiver disponibilidade para isso. Nomeadamente, devo retirar a rádio. Já nem sei o que lá passa, porque costumo tirar o som e nunca mais me deu para rever os seus conteúdos. A sua criação foi muito limitada em termos de músicas e não gostei muito do resultado.
Aqui irão caber mais temas, mais assuntos, tratados de formas variadas. Menos de uma semana depois de ter, finalmente, terminado um livro que já andava a prometer há muito, acho que a altura é propícia.
Espero manter o público e – quem sabe? – alargá-lo.
Até breve!

Sexta-feira, Fevereiro 29, 2008

Esta data...

Faz hoje um ano que o Corfebol ascendeu ao top 10 da modalidades mais praticadas na Europa.
Faz hoje dois anos que o Corfebol ascendeu ao top 50 das modalidades mais praticadas em todo o Mundo.
Faz hoje três anos que o Corfebol ascendeu a primeira modalidade praticada na Holanda.
E, se num dia vieram, no mesmo se foram as marcas históricas. Só existiram nesses dias e, por nesses serem, apenas no mais efémero da imaginação perduram.
29 de Fevereiro é quase um 1º de Abril... é mentira, três em cada quatro anos.

Sexta-feira, Fevereiro 15, 2008

Cancelas no Topo da Montanha

Há temas complicados no Corfebol. Ainda bem. Se a Vida fosse simples, não tinha um terço da piada.
Há temas que estão cheios de retorcidas voltas e intrincados nós. Nó de empatadura para cá, cais de guia para lá, nó de escota para além, opinião com siso hoje, volte-face amanhã, talvez-sim-talvez-não quase sempre.
Há um tema em que isso, para mim, é particularmente acertado. Talvez porque em tempos há muito idos tinha uma opinião, que considerava inabalável; e depois passei a ver as coisas por outro prisma e a aceitar a opinião contrária; e mais tarde vejo-me balanceando entre o rol de prós e a lista de contras.
1ª Divisão só com primeiras equipas? Só com primeiras e segundas? Sem restrições?

Há anos que isto é motivo de debate. A evolução deu-se, primeiro, com a passagem de um modelo livre para um outro em que as terceiras equipas não podiam jogar na Divisão principal, mesmo que fossem claramente superiores a algumas que por lá andavam. O segundo passo foi deixar que só as A jogassem entre si, mesmo que algumas B pudessem ser claramente superiores a algumas destas.
Curiosamente, começo por ver a mente dividida precisamente olhando para estas duas etapas à luz do critério principal de objecção - o valor das equipas que não podem passar da 2ª Divisão.

É que, por acaso, penso que a primeira revolução foi mais sustentada do que a segunda, mas acho que a segunda implicou uma menor injustiça competitiva que a primeira.
Isto porque, lá pelos anos 90, havia os grandes colossos, que apresentavam números fantásticos que chegavam a 7 equipas em competição. Dessas, era natural que a 3ª fosse superior às primeiras dos clubes emergentes. Portanto, reduzir a duas equipas por clube na 1ª Divisão podia ser frustrante para os técnicos e atletas dessas equipas, que existiam no ISEF ou na Secundária de Odivelas.
No entanto, a grande vantagem era a sustentabilidade. Havia clubes em número suficiente para que houvesse luta pelos lugares no primeiro escalão. Até porque eram duas equipas de cada que podiam entrar nessa luta.

A segunda etapa deste processo não mostrou o mesmo fosso entre as últimas equipas da 2ª Divisão e as melhores da 1ª. Pode-se dizer que, ao contrário do primeiro caso, as equipas presentes na 1ª Divisão podiam perfeitamente lá estar sem escândalo (utilizando uma palavra que, no âmbito do “comentarismo” desportivo fica sempre atenuada). Se as tais “C” que ficaram de fora em tempos idos eram claramente superiores a outras que lhes passaram à frente, as mais fracas “A” actuais são equiparadas às melhores “B”.
Mas deu-se o problema da sustentabilidade. O factor que abala esta medida é a falta de concorrentes aos lugares disponíveis. Não há clubes suficientes para que um número lógico de equipas “A” lute pela 1ª Divisão.
Apesar de, no projecto inicial, terem sido incluídas cláusulas regulamentares que impõem uma classificação meritória na 2ª Divisão para a subida à 1ª, o que é certo é que não há uma luta pela subida.

A regra geral é contrária à prática tradicional do Corfebol português. Habituámo-nos a esta coisa de ter várias equipas do mesmo clube na mesma competição, mas isso praticamente não existe noutros países nem noutras modalidades.
Se olharmos para as outras modalidades colectivas em Portugal, o que vemos é que a regra é haver uma única equipa por escalão. Se um atleta não tem valor para jogar a titular nessa equipa, o melhor que tem a fazer é ir para um clube mais fraco.
Mesmo quando há equipas “B”, o comum é que nunca possam disputar a mesma divisão. Servem como equipa de reservas, para formar atletas com o objectivo de, a qualquer momento, subirem à equipa principal.

O Corfebol é diferente. Um grande número de equipas por clube facilita o trabalho organizativo, implicando uma única estrutura para várias equipas. Aceitá-las em competição é garantir números. Números de atletas, números de equipas… só falhando algo que se tem revelado essencial, que são os números de clubes.
As medidas tomadas visaram, entre outras, essa questão. Reduzir o número de equipas por clube na 1ª Divisão é um incentivo a que surjam novos clubes, que cresçam os clubes emergentes e que se atenue a tendência para clubes sobredimensionados e hegemónicos.
Em vez das 7 equipas do ISEF ou das 6 do NCESO, ou das 5 do Sassoeiros, abriu-se espaço para o crescimento do Carnaxide ou do Porto, para o aparecimento do NCB ou do Liberdade, para um último fôlego da Batalha.

E Batalha rima com falha. O fôlego, que se esperava decisivo para uma nova vida, acabou por ser o canto do cisne. Houve, sem dúvida, um novo empenho, uma nova motivação, mas esvaiu-se rapidamente, mostrando de novo as fragilidades que há anos que se anunciavam, e perdeu-se a batalha (com ou sem maiúscula, dependendo do sentido que quiserem adoptar).
Aliás, parece que há uma tendência contrária às intenções no que diz respeito aos clubes a Norte. Parece-me mera coincidência mas, entre 1995 e 1996 (pouco depois da primeira restrição) desapareceram o Sangalhos, a ESE de Viana, a ESE do Porto e o FCDEF.

De qualquer forma, tentando resumir, os princípios apresentam-se como bem intencionados e correctos. No entanto, para que as coisas funcionem verdadeiramente, é importante que haja mais LAC’s a aparecer, que haja mais Doroteias a regressar (mesmo que com nomes alterados), que haja SLB’s a entrar no jogo.
Parece-me evidente que mais vale ter muitos clubes “monoequipa” do que poucos clubes “multiequipa”. Mas, seja feita justiça a quem reclama - quase sempre olhando para a sua “B” – e veja-se isto como a pescadinha de rabo na boca: Este incentivo a que haja mais clubes pressupõe a existência de mais clubes.
E agora desate-se o nó, que eu não consigo.

Quinta-feira, Janeiro 24, 2008

O Meu Mundo está Mais Largo

Pela primeira vez na sua história, a Internacional Corfebolista (movimento ideológico criado, hic et nunc, by Avô) tem, desde Dezembro de 2007, um número de países filiados (contam os critérios da IKF) superior ao dobro dos anos da sua existência. Contas estranhas, que só passariam por esta cabecinha que inventa marcos históricos em qualquer lado.
Aos 104 anos, o Corfebol atingiu os 54 países com prática suficiente para estarem filiados na Federação Internacional. Foram mais 10 (!) na última Assembleia Geral, cabendo aos argentinos o fecho actual da lista.

Em 1978, para comemorar os 75 anos da KNKV (Federação Holandesa de Corfebol; primeira no Mundo), realizou-se o primeiro Mundial de Corfebol. Participaram, então, 8 países, de entre os 10 que estavam filiados na IKF. Em pouco mais de 30 anos… o crescimento é considerável.
Hoje, 24 países estiverem presentes nos oito Mundiais realizados. Apenas 4 (se considerarmos a Inglaterra como o legítimo sucessor da Grã-Bretanha e a Alemanha como o legítimo sucessor da RFA) foram totalistas. Os dois que não referi, está bom de ver, foram a Holanda e a Bélgica, que disputaram todas as finais, tendo apenas a Bélgica levantado uma vez o troféu (em 1991).
Esse é o grande ponto fraco da modalidade. Falta competitividade no topo. Só olhando para os Mundiais, vemos que o 3º lugar já foi de 5 selecções, e que já houve 15 que ficaram nos 8 primeiros, o que, em 8 edições, nem é mau. Mas as finais são muito repetitivas…

De qualquer forma, foque-se o que é bom. E o bom é termos 54 Federações (ou outros organismos equiparados) que integram o Movimento Corfebolístico Internacional (mais politicamente correcto que “Internacional Corfebolista”).
Algumas adormecidas, é verdade, outras embrionárias, claro, mas todas no Directório. 27 Europeias, 12 Asiáticas, 9 Americanas, 3 Africanas, 3 da Oceânia.
Nico Broekhuysen deve estar contente, lá no fundo da sua tumba; Adrie Zwaanswijk deve estar grato, lá no descanso da sua reforma; Jan Fransoo deve estar merecidamente orgulhoso, lá no labor do seu cadeirão.

E, se algum dia, vos perguntarem se essa coisa que nós praticamos se joga em algum lado, espetem-lhes com a lista dos 54 e riam-se. E, já agora, não se esqueçam de que, a este ritmo, a qualquer momento os argentinos podem ter deixado de ser o fim da lista.

Dank U

Sábado, Janeiro 05, 2008

3 Reis (um oldie)

Chamem-lhe nostalgia, chamem-lhe falta de tempo, chamem-lhe preguiça, chamem-lhe falta de tema, mas hoje, véspera do Dia de Reis, meto aqui um oldie, repescado de tempos já idos há muito.
Algumas referências estão desactualizadas (alguém ainda se lembra da Bárbara Guimaarães na Chuva de Estrelas?), outras podiam estar diferentes (camelos e Mário Lino ainda não se relacionavam quando isto foi escrito), outras, devo dizer sinceramente que não me lembro a que se referem (aquela dos cães vivos... se alguém me puder refrescar a memória...).
Fica a memória, a lembrar tempos mais quentes e de quando ainda nos juntávamos todos, anualmente, na praia de Carcavelos, a mandar umas bolas aos cestos no fresquinho da noite.
Cá fica, pois, o oldie. Penso que data de Junho de 2003, mas não tenho a certeza.
De remotos reinos das arábias, 3 Reis avançam, nos seus camelos, pela Avenida Marginal. Os passantes estranham. É hábito ver camelos a guiar, mas não é tanto vê-los a serem guiados pelas estradas de Portugal.
Os 3 Reis (George Clooney, Ice Cube e Mark Whalberg) tinham ido ter a Belém por engano. Chegados à Torre, concluíram que não era bem aquela Belém que queriam e puseram-se a caminho, na direcção de Cascais, à espera de um sinal.
A certa altura, ali para Carcavelos / São Julião, viram luz. Não era uma estrela, mas sim a luz dos holofotes na praia, auxiliada por uma outra luz, muito mais forte, que é aquela que sempre irradia dos locais onde se junta gente gira a fazer coisas giras.
Ataram os camelos à rotunda das bossas de relva. Pareceu feita à medida, porque tem bossas e porque se não foi feita para atracar camelos, dá pelo menos a ideia de terem sido camelos a projectá-la, a avaliar pela estética / utilidade da coisa.
Desceram, então, às areias. Pensavam que se iam sentir em casa, mas havia muita gente, muito mais do que nos desertos que estavam habituados a calcorrear. Passava das 200 pessoas, à volta de um oásis com meia dúzia de palmeiras esquisitas.
Esquisitas e inúteis, porque pouca sombra dão e porque em vez de as pessoas irem lá buscar fruta, passaram o tempo a atirar a fruta (uns frutos redondos, grandalhões) lá para cima. E o pior é que, mesmo que acertassem, aquilo voltava sempre a cair (ritual estranho, o destes ocidentais!).
Não havia manjedoura, mas uma tenda. Lá dentro não havia vacas e burros, mas alguns cães vivos. Lá fora, Deus dava o sinal da sua presença através de trombetas e da Sua voz incessante, ecoante, possante, que chagava a todo o lado com uma aparência de… Ferro.
A certa altura, nem a Estrela faltou. Uma estrela, ainda por cima, habituada a lidar com chuvas delas. Foi difícil de encontrar porque estava mascarada de pulga.
Convencidos, finalmente, de aquele era o local que procuravam, encontraram o chefe Ralf e expuseram-lhe as prendas que tinham para dar.
O George trazia Qualidade.
O Ice trazia Boa-Disposição.
O Mark trazia Amizade.
Agradecido, o Ralf disse que não necessitava de tais oferendas e convidou-os a olhar bem à sua volta.
A qualidade da organização daquele evento, a amizade que emanava daquele estranho Desporto, a boa-disposição que reinava entre todas aquelas pessoas, deixaram o 3 Reis admirados. Perceberam, então, que se alguém tinha prendas a receber eram eles.
Receberam uma lição de humildade; prometeram fazer uma equipa das arábias para a 4ª edição; mas o que os deixou mesmo banzados de todo foram as ofertas que levaram para casa:
Imaginem o sucesso que eles não fizeram lá pelos desertos com as suas t-shirts “Hot Inside”, as suas fitas “Love 2 Dance” a substituir os turbantes, os porta-chaves do Corte Inglês ao pescoço e (principalmente!) as botijas do “Vem Jogar Misto” penduradas nas bossas dos camelos.

Terça-feira, Dezembro 18, 2007

És Grande!

A afirmação de uma instituição (como o Corfebol) passa muito pela existência de ícones. Ícones num sentido popular e nada peirciano. No sentido de algo que identifica a instituição perante os seus públicos interno e externo.
É comum esses ícones serem algo injustos. Nem sempre reconhecem o racional e optam pelo emotivo. Tem de haver um impacto aos sentidos e esse nem sempre coincide com a lógica racional.
Então quando de pessoas se trata, mais firme é esta ideia. Referi-o há uns tempos, quando falei no Nico Broekhuysen. O Nico é um ícone e não vale a pena mexer-lhe, mesmo que não seja assim tão “Pai” do Corfebol como a história nos conta. O que é certo é que a história oficial é mais apelativa aos sentimentos do que a história revista cientificamente.
É como quanto aos fundadores de pátrias várias. São sempre vistos sob a capa de heroísmos sem fronteiras, escondendo essa capa os seus defeitos e exaltando as suas virtudes, em nome do nacionalismo. Isto vai de Nasser a Lenine, de Bolívar a Júlio César, de Selassié a Ataturk, de Tito a Washington, de Hoxha a Agostinho Neto, de Kim il Sung a Afonso Henriques.
Mas isto é importante para a ligação das pessoas com as instituições, sejam elas países ou outras. O povo precisa de bandeiras, de ícones, de heróis. E sempre que o acaso nos dê de bandeja um herói, temos de sugar o seu potencial até ao tutano.
Agora imaginem um Campeonato do Mundo. Em Bruno (isso de palavras sem vogais é para os checos; aqui é Bruno), lá longe na emergente Europa.
Prestação brilhante dos nossos representantes. Ficámos somente atrás de quem? Da Holanda, que é… a Holanda. Da Bélgica, que só por uma vez lhe viu fugir um lugar na Final de alguma competição oficial para selecções seniores. Da República Checa, que para além de jogar em casa, foi quem conseguiu esse feito único de alguma vez se ter intrometido entre os dois crónicos gloriosos do Corfebol mundial.
Não digo que isto dê para escrever um épico sobre a ida dos lusitanos a Bruno, mas é de se exaltar. Só que agora vem a parte dos ícones, das bandeiras, dos heróis.
Perdida em locais esconsos estava a informação de que tivemos a melhor marcadora da competição. Excelente! Já é uma repetente nestas andanças, mas é sempre de salientar o facto, que deve ser visto com orgulho por quem foi representado por esta atleta. A camisola que ela vestia, apesar de pequena, porque a rapariga veio ao Mundo numa embalagem XS, vestia-nos a todos, corfebolistas portugueses, e todos devemos sentir que cada um dos 17 golos que foi enfiando nos cabazes alheios era um pouco nosso. Os melhores marcadores fomos, também, cada um de nós.
O conceito de melhor marcador é dos tais que se dá uma importância mais iconográfica do que racional. É um indicador que tem a suprema vantagem de ser o mais quantificável de todos. É muito mais difícil traduzir em números qualquer outra acção de jogo e o Golo é sempre o sumo de todos os desportos com bola. Daí que, em todos os que se jogam colectivamente (talvez com excepção do voleibol… e admito que possam existir mais excepções à regra), o melhor marcador seja sempre referenciado e seja um título ambicionado.
Nos primórdios desta aventura que é o Corfebol português, um dos grandes senhores da modalidade, chamado Francisco Gradeço, foi o melhor marcador (ou terá vencido um concurso de lançamentos, ou qualquer coisa assim) de uma Europa Cup. Na altura, o ícone foi espremido de tal forma que aquele jogador era conhecido pelos mais jovens como “o melhor lançador da Europa” e isso enchia a malta de orgulho. Era um modelo a seguir. Já se sabia que lançava com uma facilidade e precisão fantásticas, mas o “título”, mesmo sem alterar as suas capacidades, vinha-lhe conferir uma notoriedade especial, como se ser bom dependesse de um diploma.
Exalte-se, portanto, a melhor marcadora do Mundial, que é nossa - Tuga. Mas não nos ficámos – não ficou esta atleta – por aqui.
A organização do campeonato atribuiu-lhe o título de Melhor Jogadora. Sim, a melhor jogadora do Mundial foi portuguesa. Lado a lado com o Melhor, Michiel Gerritsen, que é nada mais nada menos que o único atleta profissional no Planeta Terra e adjacentes.
O potencial emblemático deste facto não foi minimamente aproveitado. Temos uma bandeira em mãos, senhores. Vejam o potencial para a motivação dos nossos jovens, para a divulgação mediática, para a credibilidade da modalidade no nosso País… E não há referências nem pela Federação nem pelo Clube. Souberam os que lá estiveram e mais um punhado de pessoas que casualmente tropeçaram na informação.
Se marcar mais golos é um dado objectivo, ser o melhor é de uma subjectividade tremenda. Não me quero pôr a adivinhar se os mais reputados técnicos acham que esta atleta é a melhor do Mundo, se foi sequer a melhor na competição ou até se é a melhor em Portugal. Mas que ganhou o prémio, lá isso ganhou, e esse já ninguém lho tira.
Em tempos chamei-lhe qualquer coisa como a Rainha das Bancadas. Não me lembro se a expressão era esta exactamente, mas o sentido era esse. Se não engano foi na sequência de um Europeu jovem, em Rio Maior, em que um público maioritariamente afastado do Corfebol a adoptou como estrela maior da companhia nacional. Porque foi quem mais lhes apelou aos sentidos. Não necessariamente a jogadora mais eficaz, na totalidade das tarefas de jogo, mas sem dúvida a mais espectacular. E continua a ser a pessoa que, ao longo dos últimos anos, é mais agradável de ver a jogar.
Se um treinador em Portugal escolheria uma ou duas colegas de selecção antes desta para formar uma equipa vencedora, acredito que sim. Se um Manager em Portugal escolheria esta jogadora em primeiro lugar para garantir o espectáculo, sem prejudicar a qualidade de jogo, também o acredito.
Faz-me lembrar, em anos bem lá para trás, um tipo, também ele baixinho (e marreco, ainda por cima), que fazia sempre com que valesse a pena ir ver jogos de Corfebol. Chama-se ele Nuno Ferro e também vestia de azul.

És Grande, Inês Biocas!

Quinta-feira, Dezembro 06, 2007

3 Alegorias para um Epílogo

Alegoria 1
Ser criança é, por vezes, frustrante. Quer-se ir brincar para a rua, quer-se comprar um brinquedo, quer-se comer um doce, mas não se pode sem autorização desses adultos que decidem sem que se percebam as razões.
O Menino não era diferente. Tinha as frustrações de todos os meninos quando se deparam tantas vezes com uma barreira de incompreensíveis “nãos”. Para fazer frente ao problema, o Menino começou pela forma mais básica – a insistência. “Mas porquê?”, “Vá lá!”... eram as expressões mais ouvidas, até à exaustão.
Depois, ainda menino mas já mais sabedor das manhas da vida, o Menino refinou o truque. Passou a bater a diferentes portas, até ser satisfeita a sua vontade.
Quando queria um chocolate, pedia à mãe. E se esta lho recusava, pedia ao pai. Se este lho recusava, pedia ao tio, à avó, à madrinha… Até que alguém, mais atento à satisfação do que a outras preocupações mais cinzentas, lhe concedia o desejo.
E era vê-lo, triunfante, exibindo o seu troféu, sacado a custo, certo da justeza da concessão, olhando para os familiares anteriores com o rancor que merece quem julgou mal. Afinal ele tinha razão. Afinal merecia o chocolate. Se não o merecesse, este último familiar ia-lho dar? Claro que não.

Alegoria 2
O Menino cresceu, era agora o Rapaz, mas continuava com esse apetite voraz por chocolates.
Havia na escola um Moço a quem mãe dava dinheiro para o almoço na escola, mas que o estourava em chocolates. Justiça lhe seja feita, era generoso para com os amigos e até dividia os chocolates com eles.
Um dia, estava o chocolate do Moço no fim, sobrava um quadradinho, e apareceu um Amigo que lhe pediu esse último pedaço. Sem dar tempo para a resposta, que seria naturalmente positiva, o Rapaz, que estava perto, pediu-lhe também o quadradinho final.
Dividir estava fora de questão, ou o recheio de morango escorreria pelos dedos dos três jovens. Decidido a fazer prevalecer a ordem dos pedidos, o Moço explicou ao Rapaz que o Amigo tinha pedido primeiro.
Mas o Rapaz não entregava facilmente o ouro ao bandido. Afiançou-lhe então que, caso não lhe desse o derradeiro quadradinho, iria contar à sua mãe onde é que ele gastava o dinheiro dos almoços. Nunca mais haveria chocolates.
“Mas aí tu também nunca mais os comes”, dizia tremulamente o Moço. “Paciência; a mim não me passam para trás”, informava o triunfante Rapaz. “Faz o que achares melhor”, resignava-se o Amigo.
Oscilante entre os seus princípios morais e o temor que tinha à reacção da mãe caso descobrisse; hesitante entre o que achava correcto e a perspectiva de nunca mais comer chocolates na escola; balançando entre o idealismo e o interesse material, o Moço pediu desculpas ao Amigo e deu o quadradinho ao Rapaz.
E era vê-lo, triunfante, exibindo o seu troféu, sacado a custo, certo da justeza da concessão, olhando para o Amigo com o rancor que merece quem lhe tentou tirar o que era seu. Afinal ele tinha razão. Afinal merecia o chocolate. Se não o merecesse, o Moço ia-lho dar? Claro que não.

Alegoria 3
Já Homem, os chocolates deram origem a outras dependências. As desilusões da vida levaram ao vício, o vício à dependência séria, a dependência à marginalidade. Furto aqui, esquema ali, acabou por esfaquear um caixa de uma mercearia. Azar, o caixa morreu. Cúmulo do azar, havia um novo sistema CCTV na loja e ficou tudo filmado.
Mas já sabemos que o Homem não é pessoa para se dar por vencido assim por dá cá aquela palha. Mobilizou todos os meios que conseguiu e o seu advogado provou, por A+B, que o CCTV não estava ainda registado. Faltavam umas burocracias quaisquer ligadas à protecção de dados e às liberdades individuais dos cidadãos. O dono da mercearia ainda nem tinha colocado uns autocolantes que lá tinha a avisar que os clientes e ladrões estavam a ser filmados.
O vídeo era a única prova e esta tinha sido conseguida de forma ilegal. Toda a gente sabia que tinha sido ele o autor do crime, mas a justiça é cega e acabou por ser posto em liberdade.
E era vê-lo, triunfante, exibindo a sua liberdade, sacada a custo, certo da justeza da concessão, olhando para os familiares do caixa de mercearia com o rancor que merece quem lhe tentou tirar o que era seu. Afinal ele tinha razão. Afinal merecia a liberdade. Se não o merecesse, o tribunal ia-lha dar? Claro que não.

Epílogo
De conquista em conquista, sempre certo da plenitude da sua razão, o Velho, que fora em tempos Menino, e depois Rapaz, e depois Homem, viveu numa felicidade encenada. Esfregava cada sucesso na cara de quem lhe fazia frente. Ria, ria muito. Sentia que tinha motivos para ser feliz e que todos gostariam de estar no seu lugar.
Mas poucos lhe invejavam a posição. Durante a sua vida, perdera gradualmente a afeição da família, o companheirismo dos amigos e o respeito da sociedade. Ria, sim, mas ria sozinho.
E quando, finalmente, o vida se lhe extinguiu, o filme da sua vida que viu passar em frente aos olhos fê-lo chorar. Quando a alma se soltou do corpo ainda teve tempo de pedir desculpa a todos quantos atropelou, a todos quantos pisou para chegar mais alto.
Mas já ninguém o ouviu.

Quinta-feira, Novembro 22, 2007

Os Jovens no Galinheiro

Os galinheiros andam na moda. Tenho visto alguns por aí e, apesar de serem sempre estranhos, tudo o que venha para aumentar a prática desportiva em Portugal é bem vindo. Por galinheiros, refiro-me àqueles campos semi-cobertos, em que parte das paredes são grades e outra é parede, com tecto para não chover (pelo menos se não houver vento a soprar de uma das faces gradeadas).
Já foi há uns dias que vi pela primeira vez um desses exemplares ali para os lados do Campo Grande, nas terras onde mandam as Irmãs Doroteias. Vê-se da 2ª Circular. Chamou-me particularmente a atenção um cesto amarelo que se consegue habitualmente vislumbrar lá ao fundo, encostado. Presumo que haja outros, mas não convém procurá-los ou ainda nos espetamos no companheiro de trânsito da frente.
Hoje, às 11 e pouco, lá ia eu outra vez a circular na 2ª e vi um dos cestos ali ao meio, mais perto do nós, automobilistas, não encostado, e havia jovens ao seu redor.
Já o facto de ver um cesto de Corfebol me deixava satisfeito. Agora ainda era melhor. Era um cesto de Corfebol a ser utilizado. Não é que seja grande coisa, principalmente se virmos que até é num local tradicionalmente ligado à modalidade, mas é gira a sensação que me percorre nestas alturas e pensei partilhá-la um pouco convosco.
Tenho tido boas notícias sobre o alargamento do número de equipas, de certa forma a contrariar o clima negativo que alguns teimam em espalhar. Ainda ontem soube de boas novas sobre um clube e fiquei muito satisfeito. Este ano parece que vai ter mais equipas e até mais um clube (o tal que se deixa ver a treinar lá para a 2ª Circular). Isso é muito bom.
É pena a apatia que aparentemente se instalou onde era suposto haver a pica usual em quem inicia um novo projecto. Essa apatia demove, desmotiva. Nada se sabe, nada se avança. Espera-se e desespera-se...
Num ano em que crescemos, podemos estar a pôr um freio no crescimento com a falta de iniciativa. Quando raio é que se começa a jogar? Quando é que deixam os jovens sair do galinheiro?

Sexta-feira, Novembro 09, 2007

O Esplendor de Portugal

A Brno chegaram os Heróis, vindos do País do Mar, representantes desse Nobre Povo que são os corfebolistas.

Defendendo as cores da Lusa Nação, com espírito Valente, lutam por um feito Imortal.

Os 17 verde-rubros têm estado acima das mais comuns expectativas. Façam o que fizerem a partir de agora, já merecem o registo nestas páginas.

Chegados às nuvens, o Céu é o limite.

PARABÉNS!

Sábado, Outubro 27, 2007

A Galinha Ruiva

A Galinha Ruiva pediu ao Cão, ao Gato, ao Porco e ao Rato que a ajudassem a formar os Órgãos Sociais da sua Federação de Corfebol.
- Não – disseram o Cão, o Gato, o Porco e o Rato.
- Está bem – disse a Galinha Ruiva – formo eu sozinha.

A Galinha Ruiva pediu ao Cão, ao Gato, ao Porco e ao Rato que a ajudassem a divulgar as actividades da sua Federação.
- Não – disseram o Cão, o Gato, o Porco e o Rato.
- Está bem – disse a Galinha Ruiva – divulgo eu sozinha.

A Galinha Ruiva pediu ao Cão, ao Gato, ao Porco e ao Rato que a ajudassem a encontrar árbitros para apitar os jogos.
- Não – disseram o Cão, o Gato, o Porco e o Rato.
- Está bem – disse a Galinha Ruiva – encontro eu sozinha.

A Galinha Ruiva pediu ao Cão, ao Gato, ao Porco e ao Rato que a ajudassem a encontrar patrocinadores para a sua Federação.
- Não – disseram o Cão, o Gato, o Porco e o Rato.
- Está bem – disse a Galinha Ruiva – procuro eu sozinha.

A Galinha Ruiva pediu ao Cão, ao Gato, ao Porco e ao Rato que a ajudassem a dar formação de Corfebol a professores.
- Não – disseram o Cão, o Gato, o Porco e o Rato.
- Está bem – disse a Galinha Ruiva – dou eu sozinha.

A Galinha Ruiva pediu ao Cão, ao Gato, ao Porco e ao Rato que jogassem Corfebol com ela.
- Sim! – disseram o Cão, o Gato, o Porco e o Rato.
- Não – disse a Galinha Ruiva – jogo eu sozinha.

Esta é uma fábula infantil tradicional ligeiramente adaptada à nossa realidade. Mas foi preciso uma adaptação tão ligeira que até assusta. A realidade, neste caso, está bem perto da ficção e a moral da história ainda vai acabar por se abater sobre nós todos. Se não ajudarmos a fazer o pão, um dia também não o comeremos. A única diferença é que, no nosso caso, a Galinha Ruiva não pode comer o pão sozinha, como fez na fábula.

Quando um grupo interessado em fazer qualquer coisa pelo colectivo pede ajuda, temos de pensar o que é podemos fazer para colaborar. Usando uma fase esgotada, não pensar o que é que o Corfebol pode fazer por nós mas sim o que é que nós podemos fazer pelo Corfebol.
Há uma nova dinâmica no Corfebol português. Continuo a achar que é uma dinâmica escondida, que tarda a fazer-se mostrar (o Vento continua a muito pouco me dizer), mas ela existe.
Portanto, aproveitem agora para dar os necessários passos em frente. Saiam de trás das rochas em que se esconderam durante tanto tempo e digam “Presente!”. Aqueles que o têm feito podem confirmar-vos que, depois, a satisfação de ver as coisas feitas é mito maior.
Claro que é mais fácil continuar atrás da rocha e ir mandando pedras indiscriminadas. Claro que é mais fácil dizer que está tudo mal, sem alguma vez sabermos se faríamos melhor se a isso nos dispuséssemos.
Mas das facilidades não reza a História. E, mais do que ganhar jogos, é Campeão quem nos consegue pôr os jogos na bandeja para que os possamos ganhar.

Terça-feira, Outubro 16, 2007

O Vento nada me diz

Pergunto ao vento que passa notícias do meu País e o vento cala a desgraça; o vento nada me diz.
A palavra "desgraça" está exagerada, claro, mas vocês percebem, não é?

Um quarto de século após a morte de um grande vulto, cá estou eu com a minha mania de marcar efemérides, sejam elas boas ou más ou assim-assim. E esta deve mesmo ser marcada.
Pois pego nestas palavras de Alegre, imortalizadas pela música de Adriano, e penso no meu País, este Corfebol do qual o vento nada me diz. Não porque cale a desgraça, penso eu, mas porque não tem mesmo o que dizer.

Depois da tempestade, veio a bonança, a calma, a ausência do restolhar breve de uma folha num passadiço outonal. Talvez porque não seja ainda Outono, apesar de já o ser.
Is there anybody out there?, perguntariam vozes mais agitadas que a de Adriano. E o vento continuaria a nada lhes dizer.

Temos um Corfebol novo. Temos esperança. Temos vontade de acreditar na vontade de fazer. Temos, tenho a certeza que temos... tarda é em dar sinais de vida.

É que nem as competições self-service apareceram!

Sexta-feira, Setembro 28, 2007

Paralelos

Há uma instituição em que há trocas de palavras azedas entre o poder instituído e o poder que se quer instituir.
O poder alternativo acusa a instituição de irregularidades. O poder que tem a cadeira acusa os outros de denegrirem a imagem da instituição no exterior.
Uns dizem que só lavam a roupa interna na lavandaria pública porque lhes ataram as mãos. Os outros dizem que a máquina de lavar da instituição está a funcionar bem e que tudo não passa de chantagem.
Os opositores dizem que toda a polémica só se deve ao líder e às suas falhas. Quem manda diz que as acusações só se devem a uma estratégia de quem não sabe perder.
Nessa instituição há eleições próximas, que tardaram a ser certas, com sucessivas ameaças de adiamento.
Essa instituição são duas. Ambas com 3 letras na sigla. Uma laranja e outra de inspiração laranja. Ambas com menos expressão do que gostariam de ter. Ambas mais pequenas do que gostariam de ser.
Ambas sobreviverão à Guerra. Ambas aguardarão novas guerras.